sexta-feira, 20 de julho de 2012

Condições

Tal como Atlas cansado
e de braços roucos,
este sou eu aos poucos
deixando o mundo de lado,

não há mais tristeza,
não há, ao menos, ódio
nesta antítese sem episódio
sou apenas vazio e crueza.

As catacumbas seguem alterando
a beleza das encostas orientais,
eis o preço que Ptolemais
pagou por seguir sonhando.

A indulgência propala o asco
pelos sibilos da noite detestável,
busco abrigo na inalcançável
insignificância sem carrasco.



sexta-feira, 13 de julho de 2012

Três Vezes Menos

Eu estive em vários lugares,
mas nunca estive em mim,
a ausência é ausente assim,
tal como as sístoles ventriculares

ressecadas nesse meu ínterim.
Eu vou além dos meros pares,
escrevo sobre todos os azares
dilatando o azedume sem fim

da sordidez dos meus tombos,
eis o atestado para os rombos
deste vagar errante de Vrykolaka.

Do morto-vivo grego ao enredo,
vejo, não vejo e emparedo
a negação que não aplaca.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Retalho Fugaz

Eu invoco a injúria permissiva
-nesta noite turva e deliberante-
do excesso, aqui, neste instante,
pois a catástrofe é decisiva

e desfaz o estanque do detrito.
Entre a escória e a perdição,
esta é, novamente, a missão:
lograr o inominável em atrito

com a névoa que novamente ecoa
o meu nome naquela lagoa,
onde jazem tantos desejos afogados;

eu sigo remando as minhas dores,
para além dos meros abominadores,
eu continuo provocando olhares enojados.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Corte Lutíssono

Aventurei-me nesta manhã despedaçada
Entre parênteses existenciais,
Provando os goles sepulcrais
Do fracasso sem coordenada,

Estes cortes são originais
E salgam a minha enseada,
Da predição desenfreada
Às ficções longitudinais,

Eis o horror que completa
O vexame dedicado ao poeta
Que aberraciona as suas Musas;

"Necrofagia, velha amiga,
Venha, por favor, me siga
Até estas escoriações inconclusas".

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Necessário

"há alguma coisa errada comigo
 além da
 melancolia"
        Charles Bukowski


Eu assisto a degradação
do meu intento equivocado,
deslocando o depravado
gesto desta alucinação
a que fui resignado
para a pura enunciação
dos limites em ascensão
neste refúgio protelado.
Eu cedi... enfim
ao enterro em marfim
de toda cristandade,
cravando o certeiro
gesto nu e parteiro
da tentativa na possibilidade.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

The F(r)ognest

O fulgor batráquio
desta noite interpelante
faz
da minha índole
quimera ressecada.
Esta é a voz
rudimentar
dos Ancestrais
-esquecidos, porém temidos-
que arranha a virtude
em goles roucos
de pouca tacitude.
A deformidade entoa
[assemelhando-se a um antigo cântico enoch]
o segredo
das coisas.
A vida não é
mais que uma
alcova
mais que uma
sepultura.
A espera matinal
pelos ceifadores
do intento
é glacial e
apaga-me
sem escolha
sem escolha
sem escolha
  
(...)

eu repito para existir.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Retratos Confidenciais

O câncer espiritual que adorna
a intragável existência remediada
-para além da carne inapropriada-
dita a simetria que estorna

o rasgo discursivo-confidencial
do sentido, em furo, deste enigma,
quando a ilusão é benigna
e perpassa a destruição pessoal,

o sadismo da minha lápide
enterra o asco da moralidade
e recai, novamente, sobre a liturgia;

o incenso, a mirra, o velório,
a escrita em ato compulsório
coadunando morte e elegia.