domingo, 12 de fevereiro de 2012

Fuga de Ítaca

"...não há navio para ti, não há caminho.
Assim como destruíste tua vida aqui
neste pequeno recanto, em toda a terra arruinaste-a."
Konstantinos Kaváfis


Pois da fuga arranquei a solitude
Nula e desfigurada do agora,
A ausência fantasmática corrobora
Com o abismo abarcado pela quietude,

O patíbulo que enforca minha virtude
Contribui para a degradação que revigora
A deplorável condição que nos explora
Feito feitiçaria. Eis a similitude

Entre minha tragédia e esta nau,
Mil léguas além da vida e o mal
Que atordoa a eternidade de um instante,

Estou preso na insuficiência pessoal
Dos erros praticados -aqui- em especial,
Nesta noite ímpia e interpelante.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Daquilo Que Se Repetirá

Procurei em mais de um grimório
O sentido da minha dor,
E a cada novo torpor
Concatenei com o desprezível e o ilusório,

Do verbo trêmulo ao tormento
Recitei a pior das conjurações,
Repetindo na carne as maldições
Que tornaram Cipriano o ornamento

O belo ornamento de Satanás,
Fiel depositário das dores do mundo,
Que das sombras abissais é oriundo
E que nestas sombras [mesmas] se perfaz.

Assim afogo o intento angelical
Com cânfora, sangue e verdades,
Estas são as minhas vaidades,
O meu gesto último e fatal.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Outsider

A minha batalha não convence
Tal como o riso de Demócrito,
Este mundo já não me pertence,
Sou a ineficácia sem óbito,

Não sofro. Pois sofrer é pertencer,
E em minha álgebra não há tangência,
A obliqüidade é a providência
Para a marginalidade de entristecer

Perante a estética do fragmento,
Seremos, então, o logro do sofrimento,
A bile negra da melancolia?

Não. Sob o átrio da maldade,
Arde, em vão, apenas a verdade
Estancada em instantes de embolia.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

A Dor E O Desvio

"This thought is as a death, which cannot choose
But weep to have that which it fears to lose."
William Shakespeare

O poente está se expondo
Entre sepulcros e maravilhas,
São as mesmas fantasmagorias
Apontando para o crime hediondo
Do silêncio impresso em mármore.
A frialdade, que não designa,
Assimila o corte e persigna,
Esperando que o erro aprimore
E transforme a distância em saída,
Pois a razão, já esvaída,
Esqueceu as vias da coagulação.
Este é o hemisfério atordoante
Que substituo a cada instante
Marulhando minhas perdas em convocação.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Canção Para A Síndrome de Damastes

"A vida é noite: o sol tem véu de sangue:
Tateia a sombra a geração descrida...
Acorda-te, mortal! é no sepulcro
Que a larva humana se desperta à vida!"
Álvares de Azevedo

Das muitas mortes que tive,
Em nenhuma me detive,
Oh! Torpor juvenil a instigar
Volúpias e desejos tortos,
Um cotejo de olhos mortos
À beleza licantrópica do luar!

Corrompidamente exaurido, eu sigo
Um caminho solapado, sem abrigo,
Aproximando as sombras sem umbral
A toda misantropia promulgada,
A toda catacumba exasperada,
Adormecida em meu absurdo cerebral.

Roto, o sorriso já mitigado
É absorto por estar motejado,
Eis o hiato e seu papel,
Que faz do lupanar nostalgia,
Pois me desfaço em nevralgia
Poética, do pesadelo ao tropel,

Versificado tropel selvagem,
Serei eu a sua criadagem,
Imersa em paralelismos conjecturais?
Da pergunta hirta que revoga
Ao velho medo que afoga,
Continuam as mesmas dores imorais...

sábado, 7 de janeiro de 2012

Fuga Para Órion

Do resto que nunca esteve
Ao pudor das catástrofes pessoais,
Sombras são apóstrofes cardiais
Para a insatisfação que manteve

O hiato em meu solar.
A afasia faz do recesso
Epístola para o excesso
Desta forma lúgubre e vermicular

Que alimento com meus dias,
Destronados dias-placenta,
Aqui a vontade não assenta;
Abaixo o espetáculo das covardias.

O fim é, para o espectro,
Apenas convenções sem mistérios,
Quando desfaço dos hemisférios
Desta vida sentida sem cronômetro.

domingo, 25 de dezembro de 2011

Incomprehensibilis

"Que autores
então
há de ler essa classe?"

Vladímir Maiakóvski


Abandonei minhas defesas
procurando me afastar
deste sopro sem ar
destas vozes acesas

em minha angústia.
A ferida corrobora
e coagula, embora
ainda sem astúcia

renuncie ao trauma
de ser incompreensível
para o ser consumível
e sem alma.

Assim passo despercebido
pela via atávica
ávida e esporádica
do gesto reexibido.