quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Nada De Novo

A agressividade da noite
permeia, pois, o meu ser,
da tarefa de entristecer
à escrita sem açoite,

ainda sou o mesmo
que procura o desterro
da amargura, do enterro,
da alma sempre a esmo.

O vazio deste quarto
é pior que um parto
sem mãe nem fidalgo,

a melodia não diz
o que -talvez- sempre quis:
simplesmente falta-me algo.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Mortalis

"Much Madness is divinest Sense"
        Emily Dickinson

A solidão que corta,
liberta grilhões enfermos,
entre outros tantos termos,
faz limite e exorta

as vozes que silencio
dentro desta câmara escura
que sou; torna pura
dores tantas que prenuncio.

Assim abandono meu esconderijo
a cada ausência que erijo
destronando a calamidade,

a idiossincrasia conduz
as minhas feridas sem pus,
a minha própria insanidade.



terça-feira, 14 de agosto de 2012

Hybris


A vingança de Nêmesis
atesta a já habitual
tragédia pura e individual
que repito em meu Gênesis

aviltando o verbo decadente
do Tempo. Eis o enredo
que deflagra o segredo
daquele que não sente

o heroísmo titânico ruir.
Ser mortal já basta
pois a miséria é casta
aqui, onde tentamos existir.

Da caveira à convulsão
sou sectário da agrura
nesta insídia sem cura
busco minha própria omissão.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Beyond Insomnia

As catacumbas glaciais
deste peito flagelado
denunciam o malogrado
gesto dos espectrais
escombros do passado
que são diferenciais
para os editais
do não anunciado.
A verdade sussurra
ensangüentada e urra
obliquidades de fera;
assim este dia
nasce sem melodia...
A angústia prepondera.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Vas Insigne Electionis

"Uma ação não pode provir de um simples corpo."
               Henrique Cornélio Agrippa, o erudito

O resto, que já não é mais
resto, diz sobre o torpor,
Diana é a noite e o dissabor,
a Vontade acima dos animais,

o dragão verte-se com o veneno
próprio, a transmutação é evidente,
abaixo há o acima sorridente,
este é o espectro pleno

da morte que é vida,
o gesto putrefato é caminho
para a cova do mesquinho
arco que veste a saída

celestial do grande Trismegisto.
Assim segue a seguida flauta,
que canta a vitória, a incauta.
Aqui rasgo meu contrato com Mefisto.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Condições

Tal como Atlas cansado
e de braços roucos,
este sou eu aos poucos
deixando o mundo de lado,

não há mais tristeza,
não há, ao menos, ódio
nesta antítese sem episódio
sou apenas vazio e crueza.

As catacumbas seguem alterando
a beleza das encostas orientais,
eis o preço que Ptolemais
pagou por seguir sonhando.

A indulgência propala o asco
pelos sibilos da noite detestável,
busco abrigo na inalcançável
insignificância sem carrasco.



sexta-feira, 13 de julho de 2012

Três Vezes Menos

Eu estive em vários lugares,
mas nunca estive em mim,
a ausência é ausente assim,
tal como as sístoles ventriculares

ressecadas nesse meu ínterim.
Eu vou além dos meros pares,
escrevo sobre todos os azares
dilatando o azedume sem fim

da sordidez dos meus tombos,
eis o atestado para os rombos
deste vagar errante de Vrykolaka.

Do morto-vivo grego ao enredo,
vejo, não vejo e emparedo
a negação que não aplaca.