terça-feira, 27 de março de 2012

Da Melancolia Em Homeoptoto

A esfinge do passado é sepulcral,
Sangra, em valas abertas, todo mistério,
Repetindo nesta escrita-necrotério
O apêndice para a catástrofe bestial,

Da trepanação egípcia ao diagnóstico,
[Imhotep e a compilação da Doença],
Eu mumifico o coágulo da propensa
Insanidade delegada ao credo carótico.

Eis, então, o impasse em antimônio,
Atrelado à hologênese existencial,
Sou exaurido, lentamente, pelo especial
Gesto auriculado do mesmo demônio

Presente na profecia dos últimos dias.
Essencialmente, propago a metástase
Da repulsa sempre em análise...
Eu sigo só em minhas alegorias.

quinta-feira, 22 de março de 2012

O Pacto

Imolando o cordeiro da criação
Através das hordas de Balaam,
Eu sigo as tentações que abalam
O conflito etéreo com a escuridão,

Da eternidade insalubre e exilada
Ao ditame imposto pela liturgia,
A transfiguração torna-se aporia
E o vazio razão regurgitada,

Quando o sorriso é enfermo,
O pesar é levado a termo,
Não há lápide para minha apraxia,

Sigo, assim, existindo entremedos,
Negociando o adiamento dos enredos,
Entre o(s) demônio(s) e a profilaxia.

terça-feira, 13 de março de 2012

Clavícula Estendida

A apatia sem fulcro
aplaca a escara
apática que escancara
o vértice do sepulcro

neste ínterim [des]integrado
onde desmancho meus dias
tramando contra as afasias
do vazio em predicado

eu estive perto daquilo
que não pude estar, decerto
estive apenas à estiva

do que elegi intranquilo
pois me julguei liberto
de minha sina abortiva.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Oximoro

Eu sou a matéria-prima para a morbidez
insípida do Golem de Judah Levi,
eu sou aquilo que não vivi,
o anseio repartido em três;
a carne; o encanto; o julgamento;
a própria existência incólume e equivocada,
o homúnculo oblíquo de fé apartada
que apenas propaga o vértice do tormento
exponencial deste horizonte finito.
Eu consumo tudo o que sinto
degradando os meandros da Criação,
aviltada criação do Grande Rabino,
que tentou ser deus e foi solferino
materializando parábolas para a extinção.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

O Devir?

A arca dos meus sonhos
É feita de ossos,
Além de todos os esforços
Restam-me os gestos tristonhos

Da dor, Vertiginosa e escarlate.
Tal como o mármore exposto
Do esquecimento e do desgosto,
Sigo buscando algo que mate

A morte precoce desta tarde.
Da luz que faz alarde
Ao crepúsculo sem receptáculo

O impasse prossegue sua passeata,
Daqui até a inimiga, a eleata;
E eu? Permaneço [sozinho] neste cenáculo.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Um Pouco de Dor Em Versos Livres

"Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente."
Vinicius de Moraes


Não quero me limitar
a ser o que sou
-resto de alguém que não fui-
fluindo onde não estou

porque não ser entre ausências
é apenas insalubridade existencial,
quando o balaústre é confidencial
eu me enforco com as veias
[desta cidade rude

Assim perco a condolência
um pouco de indolência
Pois sou inocente
em minha indecência...

eu sigo o hiato dos meus passos
circunferencialmente apago
o trato que é fato, pois
não há mais volta.

Não há mais volta
não há mais... em volta
não há mais
não há
não
(...)

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Fuga de Ítaca

"...não há navio para ti, não há caminho.
Assim como destruíste tua vida aqui
neste pequeno recanto, em toda a terra arruinaste-a."
Konstantinos Kaváfis


Pois da fuga arranquei a solitude
Nula e desfigurada do agora,
A ausência fantasmática corrobora
Com o abismo abarcado pela quietude,

O patíbulo que enforca minha virtude
Contribui para a degradação que revigora
A deplorável condição que nos explora
Feito feitiçaria. Eis a similitude

Entre minha tragédia e esta nau,
Mil léguas além da vida e o mal
Que atordoa a eternidade de um instante,

Estou preso na insuficiência pessoal
Dos erros praticados -aqui- em especial,
Nesta noite ímpia e interpelante.