sexta-feira, 22 de junho de 2012

Necessário

"há alguma coisa errada comigo
 além da
 melancolia"
        Charles Bukowski


Eu assisto a degradação
do meu intento equivocado,
deslocando o depravado
gesto desta alucinação
a que fui resignado
para a pura enunciação
dos limites em ascensão
neste refúgio protelado.
Eu cedi... enfim
ao enterro em marfim
de toda cristandade,
cravando o certeiro
gesto nu e parteiro
da tentativa na possibilidade.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

The F(r)ognest

O fulgor batráquio
desta noite interpelante
faz
da minha índole
quimera ressecada.
Esta é a voz
rudimentar
dos Ancestrais
-esquecidos, porém temidos-
que arranha a virtude
em goles roucos
de pouca tacitude.
A deformidade entoa
[assemelhando-se a um antigo cântico enoch]
o segredo
das coisas.
A vida não é
mais que uma
alcova
mais que uma
sepultura.
A espera matinal
pelos ceifadores
do intento
é glacial e
apaga-me
sem escolha
sem escolha
sem escolha
  
(...)

eu repito para existir.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Retratos Confidenciais

O câncer espiritual que adorna
a intragável existência remediada
-para além da carne inapropriada-
dita a simetria que estorna

o rasgo discursivo-confidencial
do sentido, em furo, deste enigma,
quando a ilusão é benigna
e perpassa a destruição pessoal,

o sadismo da minha lápide
enterra o asco da moralidade
e recai, novamente, sobre a liturgia;

o incenso, a mirra, o velório,
a escrita em ato compulsório
coadunando morte e elegia.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Sombra Estilhaçada

A sinédoque da minha ânsia
Converge com a frieza escura
Do assombro e da procura,
Figurando entre a discrepância

E o horror desta escultura.
O estrago produz distância,
Tal como a cicatriz da infância,
Que é trauma e é estrutura,

Quando a penumbra é constitutiva,
A obliqüidade é que é furtiva
Neste inferno de mim mesmo,

A simetria é quimera plena,
Atesta o vazio que concatena
Com minh'alma deixada a esmo.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Exervício

A plenitude do fim
cravada no marfim
da existência aviltada
conduz a crença
da minha doença
descabida e degenerada:

do pessimismo funéreo
ao vazio etéreo
será que existo?
esta forma ambígua
que substitui a míngua
é onde insisto.

A busca impossível
do aquém-verossímil
torna-se insignificante
quando o desalento
forja o intento
outonando o instante

a maldição excedida
é a filia concedida
do medo flagelado.
Eis minha epopeia
predicada sem estreia
digna de um condenado.

domingo, 27 de maio de 2012

O Lamurio da Esperança

"Devem estar ainda em algum lugar as pobres coisas"
Konstantinos Kaváfis. O Sol da Tarde

Eu trago o passado em sufusão
Tentando existir des-integrado,
Porém, novamente sou tragado
Pela bestialidade desta invenção,

A endocardite e seu intento
Atestando o asco espectral,
Todo suspense é residual;
Eis a macropia do lamento.

Entre a tormenta e o túmulo,
A indiferença atesta o acúmulo
De tantas sombras nesta alcova,

Em tudo o que foi prometido,
Certamente poderíamos ter sido,
Contudo, a rachadura se renova.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

O Sufíbulo da Alma

"(...) and with a pain
No hell shall make me fear again"
        Edgar Allan Poe

A dor do regresso
é o pior dos tormentos
que encontro nos momentos
da espera em recesso,

quando a anemia dialoga
com o pretenso fracasso,
o cenário é esparso
e vai além da sinagoga,

não há exorcismo para mim,
não sou -mais- réu primário
da catástrofe ao obituário
o meu fim é sempre assim,

nunca aposte sua cabeça
com o diabo, dizia
o apostador em primazia
espero que não aconteça

a colheita das almas errantes,
[esta foi a minha aposta]
aquém da vertigem exposta
encontram-se as vozes torturantes

deste inferno metafísico. Entretanto
o vazio ainda prospera
lá onde o isolamento dilacera
qualquer possibilidade de espanto.