segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

A Dor E O Desvio

"This thought is as a death, which cannot choose
But weep to have that which it fears to lose."
William Shakespeare

O poente está se expondo
Entre sepulcros e maravilhas,
São as mesmas fantasmagorias
Apontando para o crime hediondo
Do silêncio impresso em mármore.
A frialdade, que não designa,
Assimila o corte e persigna,
Esperando que o erro aprimore
E transforme a distância em saída,
Pois a razão, já esvaída,
Esqueceu as vias da coagulação.
Este é o hemisfério atordoante
Que substituo a cada instante
Marulhando minhas perdas em convocação.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Canção Para A Síndrome de Damastes

"A vida é noite: o sol tem véu de sangue:
Tateia a sombra a geração descrida...
Acorda-te, mortal! é no sepulcro
Que a larva humana se desperta à vida!"
Álvares de Azevedo

Das muitas mortes que tive,
Em nenhuma me detive,
Oh! Torpor juvenil a instigar
Volúpias e desejos tortos,
Um cotejo de olhos mortos
À beleza licantrópica do luar!

Corrompidamente exaurido, eu sigo
Um caminho solapado, sem abrigo,
Aproximando as sombras sem umbral
A toda misantropia promulgada,
A toda catacumba exasperada,
Adormecida em meu absurdo cerebral.

Roto, o sorriso já mitigado
É absorto por estar motejado,
Eis o hiato e seu papel,
Que faz do lupanar nostalgia,
Pois me desfaço em nevralgia
Poética, do pesadelo ao tropel,

Versificado tropel selvagem,
Serei eu a sua criadagem,
Imersa em paralelismos conjecturais?
Da pergunta hirta que revoga
Ao velho medo que afoga,
Continuam as mesmas dores imorais...

sábado, 7 de janeiro de 2012

Fuga Para Órion

Do resto que nunca esteve
Ao pudor das catástrofes pessoais,
Sombras são apóstrofes cardiais
Para a insatisfação que manteve

O hiato em meu solar.
A afasia faz do recesso
Epístola para o excesso
Desta forma lúgubre e vermicular

Que alimento com meus dias,
Destronados dias-placenta,
Aqui a vontade não assenta;
Abaixo o espetáculo das covardias.

O fim é, para o espectro,
Apenas convenções sem mistérios,
Quando desfaço dos hemisférios
Desta vida sentida sem cronômetro.

domingo, 25 de dezembro de 2011

Incomprehensibilis

"Que autores
então
há de ler essa classe?"

Vladímir Maiakóvski


Abandonei minhas defesas
procurando me afastar
deste sopro sem ar
destas vozes acesas

em minha angústia.
A ferida corrobora
e coagula, embora
ainda sem astúcia

renuncie ao trauma
de ser incompreensível
para o ser consumível
e sem alma.

Assim passo despercebido
pela via atávica
ávida e esporádica
do gesto reexibido.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Elegia Para O Desencontro

Frente à catarse, o ósculo,
Esta anomalia em interstício,
Que repete o esotérico vício:
Dialogar com os ossos de Próculo.

Da astrologia do desgosto
Ao retorno do que nunca esteve,
A virtude foi quem obteve
Da melopéia o gesto transposto,

Neste mortuário não há espera,
Os grandes feitos são invertidos,
A catástrofe masturba os fenecidos;
Cada ejaculação necrófaga opera

A filia dos íncubos exponenciais,
Que admoestam o desprazimento
Deste Ser, parco e em detrimento,
À Ishtar e seus manejos babiloniais.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

O Caminho Abissal

As vozes do sótão abalam
As minhas entranhas conflitivas,
Afrouxando as amarras remissivas
Das intermitências que não calam

O umbral cotejado pelo abismo,
Assombroso abismo que figura
Entre a falta e a cissura,
Transformado em puro pessimismo,

Do verso que é verme
Ao verme que é verso,
Neste inferno estou imerso
Com o mesmo sorriso inerme.

A minha existência é afásica,
Entre o acerto módico
E o soluço claustrofóbico,
Estou além da causa torácica.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Desfecho Inexistente

"Quem sabe, alma, se o que ainda não existe
Não vibra em gérmen no agregado triste
Da síntese sombria do meu Ser?!"

Augusto dos Anjos


A liturgia do desamparo é fatídica
No já fatídico Ser em que opero,
Eu existo e não prospero
Além desta lápide raquítica,

Da noite nebulosa -sempre em clausura-
Ao retiro das navalhas amolecidas,
A minha índole segue estas feridas,
Sem aptidão, sem cor e em desventura,

Tenho, então, um ossuário como protagonista,
Quando a anomalia é a antagonista
Do sorriso que minha paz não tem,

A tragicidade deste comício é absurda,
Não há ninguém que afaste ou aturda
A véspera da melhora que não vem.