domingo, 25 de abril de 2010

Autofagia

"E eu, somente eu, hei de ficar trancado
Na noite aterradora de mim mesmo!"
Augusto dos Anjos. Trevas

A minha escuridão é plena e ilustrada,
Figura as marcas da razão desidratada,
Deste animismo opaco e oblíquo ao desatino
Que vela a melodia destrutiva do meu destino,

A compulsão é o fracasso que carrego eloqüente,
Da esperança tácita que transpiro descrente
Ao bosque negro que dá forma a esta ausência
Em meus sonhos, o corte é a ordem da ambivalência,

E uma vez mais sinto a velha posse postergar,
As melodias que, com pus, insistem em apregoar,
Desgraças lúdicas em meus passos desconfigurados,

Pois o mesmo fantasma rompe a noite vencida
Recitando esta sina que já floresce amanhecida,
Eu congrego a romaria de todos demonios amargurados.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

O Corvo e A Lâmina

Eu canto aquilo que não pude,
Esperando aquilo que não vem,
Do rosto olvidado que convém,
A este convi-ví-cio sem virtude,

O resigno ao meu sepulcro é entoado,
Sangra o cântico categórico do Passado,
Eis a velha liturgia da letargia malograda,
Os mesmos edemas, a mesma via desgraçada,

Para o medo que não afasta esta falha,
Para o abrigo das minhas pragas em mortalha,
Quando a ausência congrega-se fazendo comunhão,

É, pois, o fracasso afiado e insistente,
Que na minha súplica medíocre e descrente,
Reitera a incompletude apenas por diversão.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Da Ausência

O contraponto da sodomia em meu ser
Diz pouco sobre esta nosografia poética,
Da sintaxe coercivamente afonética
A degradação [sugestiva] que decidi escolher,

É, pois, a hifemia deste pergaminho esquecido
Que verbaliza a exaustão que há em meu tecido,
Tacitamente aflito pela falta primeva,
Eis a mortificação que meu Nome leva,

Do desejo petrificado ao demônio da perversão,
A minha derrota fica além da intenção,
Além do repetido pronome em meu instinto,

E é quando eu interrogo a inexorabilidade plena
Do meu desatino que o destino entra em cena,
Assassinando com veemência aquilo que sinto.

domingo, 4 de abril de 2010

A Ressurreição que Não Acontece

A esperança sem ritmo corre amarelada,
Em meus ossos tortos de escrita desfigurada,
Da apatia que indica um simbolismo sem plenário,
A transfiguração que carrego [só] neste vestuário,

Sobras de um assombro que dissolve,
Hora por hora, este cadáver e não se envolve,
Com a volúpia dos meus gritos de cavidade oca,
Com a frialdade escura e imaculada desta boca,

Pois, do receptáculo de carne enfraquecida,
Ao fracasso destas teorias, o eternamente fica embalsamado,
Sem odor, ausente e devidamente não consumado,
Afinal, sou a catacrese da ferida não esquecida,

Que figura perplexamente na escuridão,
Do vazio que trago costurado à minha súplica,
A minha proposta certamente não possui muita exatidão,
Pois concorro sempre com a sombra da minha rúbrica.

domingo, 28 de março de 2010

Sobre o Vaso Morto na Janela

O aborto que há entre meu ser
E as hordas drásticas da exasperação,
Conduzem esta enfática catarse de entreter
O que falta, ramificado e em condensação,

Entre o pântano das lágrimas esquecidas
E a vertigem destas linhas furtivas,
Eu sigo vomitando histórias adormecidas
Pela memória residual de tantas almas esquivas,

Do cheiro de morte que há em meu bosque
Aos cravos secos da minha sorte,
Eu procuro algum nervo que não enrosque
Em meu peito, e que não mais corte

A minha essência que já é dilacerada,
Adornada com o caos da Tristeza sem martírio.
Para Esta dor que não consegue ser cauterizada
Eu dedico somente aquele velho lírio...
[que um dia indicou a tua presença]

terça-feira, 23 de março de 2010

Entre as Frestas

O semblante corrosivo da finitude,
Marca a arca sem plenitude,
Destes espinhos de alegria desviada,
Onde a procura é imprópria e vazada

Da integridade inócua e incisiva
A ilusão que descolore a vida,
A solidão torna-se permissiva,
Pois tenta esquecer e não é esquecida,

Na descida aos escombros do meu final,
A doença da escrita é o terminal,
Onde o insalubre dialoga com as bestas,

E do descontentamento que perfila o meu tema,
Prolifero mais uma decepção como esquema,
Empilhando todas as agruras [minhas] em algumas cestas...

sábado, 20 de março de 2010

A Doença do Verso Visceral

O Sabbath negro da minha literatura
É articulado com a própria estrutura,
Daquilo que tive e assassinei,
Lágrimas e lâminas onde eu fracassei,

Da ruptura do nervo panóptico axial
Aos meus rumores sem entonação,
Eu busco a fuga deste olhar especial,
Pois, o que escrevo é a profanação

Vertiginal de um cemitério sem velório,
A cromatização do sorriso ilusório,
São tantos os instantes envenenados
Que, meus mortos não passam de renegados,

Quando o fim é somente um ritual não conjurado
Para a rispidez infinita em meu ser,
Estes versos representam o que não foi curado,
Pois são apenas cortes daquilo que não posso ter.