segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Notas para o Verme Interior

As anomalias do meu cérebro,
Resguardam tal qual Cérbero,
Todo inferno neuronal deficiente,
Que congrego, mais uma vez, doente,

A este assomo poético inexperiente,
De caráter goético e inexistente.
Pois meu sangue lírico é agramatical,
Um corpo sem signos, errante e espectral,

Que repete a dicotomia da tristeza,
Frente ao descaso, com assombro e destreza.
“Se retrato a vida funesta como beleza primeira,
Certamente sou o monstro da Moral rameira.”

(...)

E assim meu esqueleto segue amargurado,
Porém sem medo de ser o último significante representado,
Nestas Memórias Póstumas destinadas à deterioração.
Afinal, a morte tem a própria morte como redenção!

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Quando Baphomet Adormece

A serpente da desgraça me persegue,
Encarnando o veneno na dúvida, consegue
Transmutar o vazio lúgubre da minha alma
A este pântano que concerne todo trauma,

Da vivência adoecidamente conturbada,
Que trago entre a episteme deformada,
E estes relatos notoriamente precários.
São, pois, meus olhos manuais mortuários,

Para todo o assombro fugaz e repetido,
Deste meu caminho dialético e adoecido,
Adormecido pelas forças em oposição,
Que dito a cada passo com rouquidão,

A cada passeio que faço pelos cemitérios
Da humana evolução. Viscosa e sem critérios,
A inexpressão destes ossos [liricamente] é meu mérito,
Pois sei, lápides são dedicadas ao coágulo do pretérito.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Hoje o Blog está de Luto


Pois é, hoje não postarei nenhum poema. Escreverei aqui algumas poucas e humildes palavras sobre talvez um dos últimos grandes pensadores que ainda circulavam neste nosso plano.

Talvez, hoje em dia, pouca gente se importe com este senhor que falecera hoje. Porém, Claude Lévi-Strauss redefiniu a forma de se pensar o ser humano e suas relações. O célebre livro "Antropologia Estrutural" forneceu novos parâmetros para se pensar a Psicanálise pós-Freudiana (Jacques Lacan), a Semiótica/Semiologia, a Sociologia, e claro a Antropologia, que era sua área de estudo, além de uma infinidade de contribuições. Enfim, uma grande perda intelectual e humana. Aos 100 anos recém completos ele ainda dava aulas e pequenas conferências. Bom é isso, o cara que redefiniu o conceito de "mito", hoje, torna-se um.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

O Poema Bastardo

Sou um livro morto
Sem gravura ou esboço
Não possuo página nem rosto
Meu sumário é escuro e oco

Apenas insetos habitam meu corpo
Póstumo, vazio e fosco
Eis a tríade do desgosto
Sangrada da garganta até o dorso

Com gosto,
Cada capítulo representa um osso
Perdido pelo ausente
Exposto em notas
Costuradas da alma até o fosso

Das idéias intermitentes
Edificadas pelo esboço
De minhas falhas existentes
Eis a contracapa: A morte do esforço.

Afinal, sou um livro morto.

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Este poema estará no meu livro "Poemas Noturnos", dizem as más línguas, ou as boas, que ele sairá em Novembro.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Meus Demônios

Mais uma noite eu preciso acalmar meus demônios
Sangrando culpa pelo ofício da escrita
Em cada orifício meu me ocorre esta maldita
E eu tento amargar suas manchas com amônio

Contudo, cada marca é profundamente aflita
Sânscrita com fonemas em meu corpo
Sou enfermo por excelência da vida
É mais que sintomático todo este desacordo;

Eu e a mesma sintaxe repetida,
Da complexidade ao estudo do que é escroto
Aqui é onde toda procura [minha] fica retida,
Já não há mais tinta para tanta ferida,
E Mesmo assim o verso continua seu comboio:

-Assegurar a mais prolixa condição para o desconforto.

Por vezes, dói apenas estar vivo
Pois me sinto perseguido neste hospício
São tantas palavras masturbando meu vício
Que

(...)

Eu sou meu próprio manual de autosacrifício.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Relapso Fonético

Uma noite de poemas sórdidos
Onde toda tragédia seja revista
É o que peço com bons olhos
Para minha existência desmedida

Contudo a escrita me foge aflita
E eu não tenho mais versos em meus sonhos
Apenas sangrias a se perder de vista
Reconfortam meu vocábulo impetuoso

Eu nego os vermes da minha língua
Com os mesmos pronomes em primeira pessoa
Sem quimeras, somente uma linha que ecoa
Enfermidades em meu corpo cheio de verdades.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

A Mesma Lápide Ainda Sangra

Antes mesmo de adormecer
A fobia destes olhos
Encarcera-me de modo abissal
Tal qual A morte de Abel
Descrita num quadro vertiginal
De paisagens ocras.

E deito-me neste leito
Generoso ao fracasso
Ante o céu e suas pragas
Vejo-me escondido
Vejo-me esquecido
Repetido entre as lacunas
De dias não existidos.

E pelas córneas trêmulas
Uma noite denuncia suas verdades
Aos prantos atiro lâminas
Ofuscando veias gastas.

Então divago,
A porta entreaberta
O cadáver putrefágico
Um destino trágico
É a sina do poeta.

Abro o livro dos fracassos
E As palavras purificam-se
Cada qual por si só
Como um castigo premeditado
Estátuas de sal
[Compactuando]
A beleza natural
Dos erros de Gomorra.

Poema antigo, escrito lá pelos idos de 2006.
Não lembro a data exata, pois penso -humildemente- tal qual Quintana: "Teus poemas, não os dates nunca..."